Há uma vertigem de incertezas que se amontoam e dificultam perceber o que vai acontecer no futuro, como vai ser o futuro, onde encontrar a esperança que nos leve a perseverar.

Há uma sensação de falta de controle que assola todos, pessoas, empresas, instituições. É normal numa situação como esta, em que todos foram apanhados de surpresa e despreparados. Há uma vertigem de incertezas que se amontoam e dificultam perceber o que vai acontecer no futuro, como vai ser o futuro, onde encontrar a esperança que nos leve a perseverar.

No entanto, a história pode ajudar. Passei pessoalmente por algumas crises durante a minha vida profissional: a bolha das dot.com seguida do 11 de setembro, após o virar do século, a crise de 2008-2012. Nestas alturas a sensação de desnorte foi similar. Sentiu-se também que nunca tinha havido uma crise como a que se viveu nessa altura, que os danos para a economia iriam ser catastróficos, senão mesmo irrecuperáveis. O tempo encarregou-se de mostrar quão errados estávamos.

As recuperações aconteceram, muitas vidas foram mudadas e, como sempre acontece, houve pessoas e instituições que se adaptaram e vingaram, e outras que ficaram pior. Mas, no cômputo geral, evoluiu-se, houve melhorias. Um sistema democrático e capitalista, baseado no primado do indivíduo e na liberdade, vive da destruição criativa cíclica. É a própria natureza do sistema. Há, obviamente, que tomar conta das pessoas e famílias que passam dificuldades para não deixar ninguém para trás, mas não se pode viver para sempre em passados gloriosos ou confortáveis.

A situação atual permite-nos fazer experiências de novas formas de organização pessoal e de trabalho que não se sonhariam possíveis há meses atrás.

A massificação do trabalho remoto é uma delas. Embora o atual contexto não seja, de todo, o epíteto de trabalho remoto, pelo facto de ser forçado, a realidade é que grande parte das pessoas e empresas se vê agora nesta situação.

Há muito se fala das vantagens do trabalho remoto. Maior flexibilidade de horários, menos pressão nos transportes e no ambiente, melhor equilíbrio vida/trabalho, maior produtividade são hipóteses que finalmente podem ser testadas em escala. Tal como as tecnologias, ferramentas e capacidade de organização do trabalho remoto por parte das pessoas e das empresas.

No mais recente Tech Careers Report da Landing.Jobs, há alguns dados curiosos: mais de metade dos inquiridos considera importante ou muito importante a possibilidade de trabalho remoto ou trabalhar de casa. Entre estes haverá aqueles que preferem um ambiente remote-friendly (possibilidade de trabalhar alguns dias remotamente) e os que querem mesmo trabalhar em modo full-remote.

No entanto, políticas efetivas de trabalho remoto são claramente um fator de progressiva importância na atração de talento.

Há muitas empresas cujos gestores são culturalmente avessos a esquemas de trabalho em que “não podem ver” os seus colaboradores. Infelizmente a nossa cultura de trabalho enferma ainda muito de desconfiança e micro-gestão, com pouca predisposição para a criação e cultivo de ambientes de trabalho baseados em autonomia e responsabilidade dos colaboradores. Espero que esta crise sirva para que organizações mais retrógradas percam terreno para empresas mais dinâmicas, com maior capacidade de operar com culturas e métodos de organização menos tacanhos, quiçá com uma forte componente de trabalho remoto.

As oportunidades estão aí, haja vontade e coragem de mudar.

Por Pedro Moura – head of talent na Landing.Jobs


Fonte: www.eco.sapo.pt
Trabalho remoto pós-Covid


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